quarta-feira, 1 de junho de 2022

Piratini – A Primeira Capital Farroupilha

Piratini é um município brasileiro localizado no Rio Grande do Sul, sendo destaque no estado por ter sido a primeira capital farroupilha e também a primeira capital de princípios republicanos no Brasil. Antes da chegada dos europeus, o território gaúcho era habitado por povos indígenas, entre eles os índios Tapes (guaranis) que habitavam a região de Piratini. Sua cultura era baseada na produção e cultivo da horticultura tecnicamente muito simples. Piratini" ou "Piratinin" (denominação primitiva) na língua tupi-guarani que significa "peixe barulhento". A história do município de Piratini se inicia de fato em 1777, quando os primeiros militares portugueses instalaram-se às margens do rio Piratini. No entanto a fundação aconteceu, mais tarde em 6 de julho de 1789, quando chegaram a região 48 casais açorianos. As terras onde foram colocados os casais faziam parte de uma estratégia de ali barrar possíveis caminhos de invasão por espanhóis ao Rio Grande do Sul, ao longo do divisor da serra dos Tapes, a partir de Cerro Largo (atual Mello), e através do passo Centurión (então Passo Nossa Senhora da Conceição) do rio Jaguarão. Os casais se estabeleceram em Piratini, de 1789 a 1807, com o objetivo de intensificar a ocupação portuguesa em todo território. Um dos motivos foi o Tratado de Santo Ildefonso, imposto pela Espanha a Portugal, que não agradava os rio-grandenses. A tradição guerreira da cidade iniciou-se já em 1827, quando muitos habitantes da Freguesia tomaram parte na campanha da Guerra da Cisplatina. A insegurança na fronteira que se transitava, elegeu Piratini, situada sob a proteção da serra dos Tapes, como local seguro para se viver. As famílias açorianas que migraram construíram boas casas, inclusive palacetes e sobrados até hoje mantidos. Piratini foi instalada a categoria de Vila em 7 de junho de 1832, pelo conselheiro Antônio Rodrigues Fernandes Braga, decorridos 42 anos de sua fundação, sendo eleita e empossada a primeira Câmara Municipal. Dos 40 signatários da ata de fundação registramos entre eles, Bento Gonçalves da Silva. No decorrer do tempo, Piratini se desenvolveu e passou a ser um local estratégico devido principalmente ao seu relevo. Durante a Revolução Farroupilha, Piratini teve um importante destaque no confronto. No dia 20 de setembro de 1835, os farrapos atacam a capital da província, Porto Alegre, destituindo do poder o presidente Antônio Rodrigues Fernandes Braga, que fugiu para Rio Grande. Um grupo de rebeles farroupilhas ocupou Porto Alegre, enquanto outros cem homens deflagravam o movimento na Vila Piratini, comandados pelo capitão de milícia Antônio José de Oliveira Nico e por Domingos de Souza Neto, rendendo e destituindo as autoridades imperiais na cidade. As primeiras colunas de farrapos marcharam pelas ruas estreitas da vila, em 8 de outubro de 1835, sob a aclamação dos piratinienses. Por sua localização estratégica, no alto da Serras do Sudeste, e pela existência de dezenas de prédios próximos para a instalação dos comandos revolucionários, a vila tornou-se o centro de operações do movimento. Em 10 de setembro de 1836, Antônio de Souza Neto, venceu o combate do Seival com sua Divisão Liberal Integrada. No outro dia, em 11 de setembro, Neto apareceu a galope, postou-se ao centro da tropa, ergueu a espada e anunciou a proclamação da República Rio-Grandense. Em 11 de novembro de 1836 foi instalada em Piratini, a capital da República Farroupilha, sendo elevada em 1837, ao título de "Mui Leal e Patriótica Cidade de Nossa Senhora da Conceição de Piratinym". Na Câmara da cidade houve a posse de Bento Gonçalves na Presidência da República Rio-Grandense em 16 de dezembro de 1837. Piratini esteve sede oficial da República Rio-Grandense ou República do Piratini, entre os períodos de 11 de novembro de 1836 e 15 de julho de 1842.
Nos dias atuais Piratini conserva, em suas ruas, os casarões da época do povoamento e da revolução, sendo patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Sul, tais como o Museu Histórico Farroupilha, a Igreja Nossa Senhora da Conceição, o Palácio da República Rio Grandense, o Sobrado da Dorada, a Casa da Camarinha, construções do final do século XVIII até à primeira metade do século século XIX, entre outros.
É considerada, uma das cidades mais importantes do Rio Grande do Sul, por possuir uma significativa concentração de monumentos tombados pelo IPHAN e IPHAE, considerado dessa maneira um dos centros históricos mais completos e homogêneos do Brasil.

Por: Diones Franchi
Jornalista
Mestre em História

Fontes:

- Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre,1981. 12 volumes
- Portal - http://turismopiratini.com.br – Prefeitura de Piratini - RS
- PORTAL - http://www.ahimtb.org.br/piratini.htm
- Piratini- Um Sagrado Símbolo Gaúcho Farrapo - Cel Cláudio Moreira Bento

                                                                 Vista aérea Piratini - RS

                                                                       Piratini - RS


                                                                       Piratini - RS

 


 

segunda-feira, 2 de maio de 2022

O Tratado de Ponche Verde

O Tratado de Poncho Verde foi um acordo que pôs fim à Revolução Farroupilha, onde ficou definida a volta do território da província do Rio Grande do Sul, a fazer parte do Império do Brasil. À data de sua assinatura acontece em 1º de março de 1845, quando foi anunciada a paz.
Ponche Verde é uma região assim denominada pelos seus verdes campos, ótimos para a criação de gado, que faz parte atualmente do município de Dom Pedrito, localizado no sul do estado do Rio Grande do Sul.
Em 18 de dezembro de 1844, D. Pedro II elaborou um decreto, de conteúdo reservado, dispondo sobre as condições de paz. Estas condições poderiam ser adaptadas e autorizadas pelo Barão de Caxias nas negociações.
Ainda em 1844, Bento Gonçalves iniciou conversações de paz, mas retirou-se por discordar de Caxias em pontos fundamentais, assumindo no seu lugar Davi Canabarro.
Na verdade não foi uma paz fácil de ser realizada, pois um dos impasses era que o Império queria negociar uma anistia, mas os farrapos rejeitavam, entendendo que o acordo deveria ser através de um tratado de paz, fato esse que o governo central recusava, com o argumento que tratados se faziam entre países e a república rio-grandense não era reconhecida. O que podemos entender é que Caxias usava uma linguagem dupla, para satisfazer os farroupilhas e outra que evitasse condições inaceitáveis pelo Império. Através de documentos pode-se entender também que Canabarro e Vicente da Fontoura se submeteram em parte, as condições impostas pelos imperiais, sem dar um reconhecimento maior aos seus companheiros farroupilhas. Uma dessas condições seria não haver um acordo assinado em conjunto.
Em Ponche Verde, no final de fevereiro de 1845, foram examinados pelos republicanos os termos do documento, já assinado por Caxias, que foi intitulado de Convenção de Paz entre o Brasil e os republicanos. O general David Canabarro, comandante em chefe do exército republicano, investido de poderes para representar a presidência da República, aceitou as condições. Farrapos e imperiais se reuniram no Acampamento Imperial de Carolina, em Ponche Verde, região do atual município de Dom Pedrito, para decretar a pacificação da província. Foram 12 as cláusulas da pacificação. Foram lidas em Ponche Verde no dia 25 de fevereiro, por Antônio Vicente da Fontoura:
Art. 1° - Fica nomeado Presidente da Província o indivíduo que for indicado pelos republicanos.
Art. 2° - Pleno e inteiro esquecimento de todos os atos praticados pelos republicanos durante a luta, sem ser, em nenhum caso, permitida a instauração de processos contra eles, nem mesmo para reivindicação de interesses privados.
Art. 3° - Dar-se-á pronta liberdade a todos os prisioneiros e serão estes, às custas do Governo Imperial, transportados ao seio de suas famílias, inclusive os que estejam como praça no Exército ou na Armada.
Art. 4° - Fica garantida a Dívida Pública, segundo o quadro que dela se apresente, em um prazo preventório.
Art. 5° - Serão revalidados os atos civis das autoridades republicanas, sempre que nestes se observem as leis vigentes.
Art. 6° - Serão revalidados os atos do Vigário Apostólico.
Art. 7° - Está garantida pelo Governo Imperial a liberdade dos escravos que tenham servido nas fileiras republicanas, ou nelas existam.
Art. 8° - Os oficiais republicanos não serão constrangidos a serviço militar algum; e quando, espontaneamente, queiram servir, serão admitidos em seus postos.
Art. 9° - Os soldados republicanos ficam dispensados do recrutamento.
Art. 10° - Só os Generais deixam de ser admitidos em seus postos, porém, em tudo mais, gozarão da imunidade concedida aos oficiais.
Art. 11° - O direito de propriedade é garantido em toda plenitude.
Art. 12° - Ficam perdoados os desertores do Exército Imperial.
Os republicanos também conseguiram que o governo imperial elevasse em 25% a taxa sobre o charque importado, mas nem todas as cláusulas são integralmente cumpridas pelo exército imperial.
- Os farrapos não escolhem seu presidente provincial e o barão de Caxias é indicado a senador pelo Império.
- O Império não ressarci integralmente as dívidas de Guerra contraídas pela província do Rio Grande do Sul, elas não são devidamente contabilizadas e tendo sido pago apenas há alguns pouca quantia.
- Não houve a libertação de todos os escravos que lutaram no Exército Farroupilha, a fim de se evitar a insurgência dos negros pelo resto do Império. Alguns são devolvidos aos seus donos, mediante reivindicação, outros são levados para Rio de Janeiro e vendidos a outros senhores. Os que fazem parte do corpo de Lanceiros Negros, comandados por Canabarro, são massacrados na Batalha de Porongos, mais conhecida como massacre de Porongos. Apenas 120 soldados são mandados incorporar por Caxias aos três Regimentos de Cavalaria de Linha do Exército na Província.
No local onde houve as tratativas entre farroupilhas e imperiais, existe um obelisco de granito, a beira de uma estrada, a 45 km da cidade de Dom Pedrito, onde lêem-se estas palavras: “Nestes campos de Ponche Verde, em 1º de março de 1845, os defensores do Império e os republicanos de Piratini asseguraram a unidade nacional, com a pacificação do Rio Grande do Sul”.
Dessa forma o Tratado de Ponche Verde foi uma “forma honrosa” de acabar um conflito onde os farrapos se apresentavam, defasados em relação ao exército imperial.
Sendo assim a partir de 1º de março de 1845 o território do Rio Grande do Sul volta a integrar o império brasileiro e posteriormente, em 15 de novembro de 1889, à República Federativa do Brasil.


Por: Diones Franchi
Jornalista e mestre em história


Fontes:
Flores, Moacyr. História do Rio Grande do Sul, 1986.
Flores, Moacyr. Negros na Revolução Farroupilha, 2004
História Ilustrada do Rio Grande do Sul, 2004.
URBIM, Carlos. Os Farrapos - Porto Alegre, 2001.

 

Monumento a Paz Farroupilha - Dom Pedrito - RS

Obelisco da Paz - Dom Pedrito - RS



Mata – A cidade da pedra que foi madeira

Mata é uma cidade situada na área central do Rio Grande do Sul, onde possui uma imensa floresta de fósseis, contendo um jardim paleobotânico de 200 milhões de anos. A cidade também é conhecida pelos fósseis de dinossauros encontrados na região. O turismo influi diretamente na economia do Município, pois se constitui de importante fator de desenvolvimento. Mata, possui numerosas atrações culturais e turísticas, sendo considerado um verdadeiro Museu a Céu Aberto, cobertos por fósseis de pedras que já foram árvores, possuindo a maior reserva em área delimitada de fósseis do Brasil, para estudos científicos.
Mata é um importante ponto turístico do Rio Grande do sul, por fazer parte diretamente da pré - história do estado e do Brasil. Além da própria cidade que possui esses fósseis espalhados, o Jardim paleobotânico, possui uma a área de 36.000 m2, sendo a única reserva delimitada do Brasil em quantidade de fósseis do gênero. O local fica a cerca de 80 km de Santa Maria e foi descoberto em 1976, pelo Padre Daniel Cargnin, quando Mata ficou conhecida como "cidade da madeira que virou pedra" ou “cidade da pedra que foi madeira”.
A cidade de Mata faz parte, dos Sítios Paleobotânicos do Arenito Mata, criado pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos. De idade Triássica, estas exposições de "florestas petrificadas" estão entre os mais importantes registros do planeta, tendo se formado a mais de 200 milhões de anos. No Museu da cidade denominado Padre Daniel Cargnin você encontra uma coleção com mais de 2.500 peças com fosseis animais, vegetais, minerais e na parte da arqueologia, sendo considerado um dos museus mais completos que existe também para estudos científicos. O acervo conta com material considerados, como um dos mais antigos do Rio Grande do Sul.
A cidade é tombada pelo patrimônio histórico e cultural, onde é composto por madeiras que passaram por processo de fossilização e se transformaram em pedra.
A explicação para a formação dos fósseis, segundo os paleontólogos, têm relação com um abalo no eixo da terra, que soterrou tudo, mantendo uma camada composta de mineral com água e sílica.
Dessa forma a madeira ficou toda soterrada e a água foi se infiltrando na própria madeira, tirando os pedacinhos de madeira e mineral, cristalizando no local. Seria uma substituição da matéria orgânica pela mineral.
Todos os anos, cerca de 10 mil pessoas visitam a cidade de Mata. E os fósseis não estão apenas nos museus. A madeira que virou pedra também é encontrada na arquitetura das casas, nas igrejas, nos detalhes das praças e até nas calçadas. Certamente é uma cidade que conta a verdadeira pré-história do estado do Rio Grande do Sul.


Por: Diones Franchi
Jornalista e mestre em História


Fontes:
- História Ilustrada do RS – RBS Publicações.
- Portal G1 - https://g1.globo.com/.../jardim-paleobotanico-de-200...
- Prefeitura de Mata – https://www.mata.rs.gov.br/

                                                             Pórtico de entrada Mata - RS

                                                                   Monumento Petrificado


                                                                        Praça petrificada


                                                                       Jardim Paleobotânico

 

quinta-feira, 10 de março de 2022

A Primeira divisão administrativa do Rio Grande do Sul

O surgimento do Rio Grande do Sul está ligado diretamente à história da sua ocupação, a partir das sesmarias e dos núcleos açorianos. Foi nesse momento que o Estado iniciou um processo de divisão territorial em áreas administrativas.Na época o Rio Grande do Sul recém fora elevado à condição de Capitania do Rio Grande de São Pedro do Sul. Dom Diogo de Souza fora designado por Dom João IV como capitão-general e “governador” do estado, sendo ele o responsável em assinar em um alvará que estabeleceria a primeira divisão administrativa no território gaúcho que, após muitas disputas entre as coroas portuguesa e espanhola, começava a tomar a forma que se mantém até os dias de hoje.
Sendo assim a primeira divisão ocorreu no ano de 1809, separando a então Província de São Pedro em quatro grandes municípios: Porto Alegre, Rio Grande, Rio Pardo e Santo Antônio da Patrulha.
Eles eram divididos da seguinte forma:
Porto Alegre – Com as paróquias de N.S. Madre de Deus, N.S. da Conceição de Viamão, N.S. dos Anjos da Aldeia, Bom Jesus do Triumpho.
Rio Grande – Com as paróquias de S. Pedro do Rio Grande, N.S. da Conceição do Estreito e S. Luiz de França das Mostardas.
Santo Antonio da Patrulha – Com as paróquias S. Antonio da Patrulha, N.S. da Conceição do Arroio e N.S. da Oliveirada Vaccaria.
Rio Pardo – Com as paróquias de N.S. do Rosário de Rio Pardo, Santo Amaro, S. José de Taquary e N.S. da Conceição da Cachoeira.
Com o passar dos anos, outras divisões administrativas foram ocorrendo, à medida em que emancipações eram efetivadas e novos municípios iam sendo fundados pelos desbravadores dos rincões gaúchos.
Essa evolução, com o surgimento de novas sedes municipais, acentuou-se, sobretudo, na segunda metade do século 19, quando a economia baseada na pecuária já se encontrava em processo de estagnação e a chegada de imigrantes europeus para povoar e colonizar novas áreas tornou-se presente.
Os imigrantes estabeleceram-se em pequenas propriedades nos vales dos rios Taquari, Sinos e Caí. Dedicaram-se primeiramente à agricultura de subsistência e, através da comercialização do excedente da produção, geraram capital que proporcionou o surgimento do comércio e da indústria. O desenvolvimento destes setores propiciou o surgimento de uma região mais dinâmica, formada de novos e inúmeros povoados. O crescimento populacional e o fracionamento das colônias, somados à chegada de novos grupos étnicos, resultou na expansão das áreas no Rio Grande do Sul e seu processo de emancipação se intensificou do que conhecemos hoje.
Atualmente, numa área de 281.730,2 km², o Estado do Rio Grande do Sul é divido em 497 municípios, de acordo com dados do IBGE e do governo do Estado. 


Por: Diones Franchi
Jornalista e mestre em História


Referências:
- Atlas Econômico do RS - https://atlassocioeconomico.rs.gov.br
- Jornal ZH - https://gauchazh.clicrbs.com.br/.../em-1809-rio-grande-do...

 


 

sábado, 29 de janeiro de 2022

Os Farroupilhas e os Caramurus

Durante a Revolução Farroupilha o exército imperial era conhecido de maneira diferente no Rio Grande do Sul.
Caramuru foi nome pelo qual os farroupilhas chamavam os soldados imperiais na Guerra dos Farrapos.
O termo antes havia sido empregado no Rio de Janeiro para designar membros do Partido Restaurador, os quais eram favoráveis ao regresso da coroa portuguesa e à volta do antigo imperador Dom Pedro I.
Logo após a Independência do Brasil, os ideais liberais de muitos brasileiros questionavam a centralização do poder pelo Imperador Dom Pedro I. Enquanto outros países da América tornaram-se repúblicas, após suas independências, o Brasil era governado por um monarca considerado por muitos absolutista.
Em 1831, o Imperador abdicou do trono em favor de seu filho. A partir daí os anos seguintes foram conturbados no Brasil e eclodiram cinco grandes revoltas regionais: a Revolta dos Malês (1835), a Cabanagem (1835-1840), a Revolução Farroupilha (1835-1845), a Sabinada (1837-1838) e a Balaiada (1838-1841). A Guerra dos Farrapos foi a mais violenta e duradoura desse período.
Em 1835, o liberal Antônio Diogo Feijó assumiu como regente uno do Brasil. Feijó renunciou, em 1837, e assumiu o conservador Pedro Araújo Lima.
No início do século 19, as Províncias do Rio da Prata entraram em guerra por independência, o que também envolveu a Província Cisplatina. Esses conflitos só terminaram, em 1828, após um acordo entre o Brasil, Argentina e Uruguai. Durante esse período, os pecuaristas do Rio Grande do Sul ficaram comercialmente fortalecidos e muitos gaúchos passaram também a sonhar com a independência. Entretanto, o governo imperial decidiu reduzir as tarifas alfandegárias para o charque argentino e uruguaio, provocando grande descontentamento no Rio Grande do Sul.
O ano de 1835 foi conturbado no Império do Brasil com o inicio de varias revoltas, sendo o poder executivo considerado instável. No Rio Grande do Sul as atividades econômicas eram o tropeirismo, a pecuária e o comércio de seus subprodutos.
Contudo, um dos problemas era os impostos sobre o charque, um tipo de carne salgada e seca ao sol, que era principalmente destinada à alimentação de tropeiros e escravos.
A Província do Rio Grande do Sul estava politicamente dividida entre os chamado farrapos (de tendência liberal) e os caramurus (de tendência conservadora).
Os farrapos ou farroupilhas eram os campesinos e estancieiros, muitos latifundiários escravagistas ou caudilhos. Não havia um ideal comum entre eles, mas um descontentamento geral com os caminhos do Império, especialmente relativos aos governos no Sul do Brasil e suas consequencias econômicas, sendo influenciados pelas repúblicas independentes da antiga América Espanhola.
Os caramurus eram uma referência a Caramuru, o Patriarca do Brasil, que habitou o Recôncavo Baiano nas primeiras décadas do século 16. Caramuru era um nobre da Casa Real de D. João III e dele descendeu os primeiros nobres brasileiros, caboclos, que habitavam a Casa da Torre (hoje, Praia do Forte). Antes e depois da fundação de São Vicente, a Bahia de Caramuru foi o principal porto do Brasil, desde os anos 1520 até cerca de 1870. Embora poderoso, sua vida na Bahia era despojada de luxo. A referência aos caramurus vem do século 17, da obra do poeta baiano Gregorio de Mattos, autor de poemas como “Aos caramurus da Bahia e aos principais da Bahia chamados os caramurus”. No Rio de Janeiro, o Partido Restaurador, que buscava o retorno de D. Pedro I, era chamado de "partido dos caramurus". Lá, também era publicado o jornal “O Caramuru” por simpatizantes daquele partido, que perdeu o sentido de sua existência com a morte de D. Pedro I, em 1834. Mas, no Rio Grande do Sul, os caramurus eram aqueles que defendiam o Império.
Em 1834, Bento Gonçalves era o comandante da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul, quando foi denunciado por desobediência e apoio aos uruguaios que defendiam a separação do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves tinha fazendas de gado tanto no Uruguai, quanto no Rio Grande do Sul, sendo julgado inocente.
Bento Gonçalves indicou, ao Regente Feijó, o gaúcho Antonio Rodrigues Fernandes Braga para substituir o baiano José Mariani, um dos caramurus, no cargo de Presidente da Província, no que foi atendido. Braga assumiu em 2 de maio de 1834, mas seu governo era impopular, principalmente pela criação de impostos.
Em abril de 1835, Bento Gonçalves assumiu como deputado da primeira Assembléia Legislativa da Província. Foi acusado de tentar um golpe separatista, com outros deputados. Bento Gonçalves e Bento Manoel Ribeiro, outro importante personagem da Revolução, perderam seus postos militares.
Na noite de 19 de setembro de 1835, Onofre Pires, comandou os farrapos no combate da Ponte da Azenha. Em 20 de setembro, Bento Gonçalves comandou a tomada de Porto Alegre, dando início à Revolução Farroupilha. Era o inicio de uma longa guerra entre os farroupilhas e os caramurus, aquilo que era uma antiga disputa política se tornaria a revolta mais duradoura da História do Brasil.


Por: Diones Franchi
Jornalista e mestre em História

Fontes:

- Historia do Rio Grande do Sul – Moacyr Flores
- Portal Brasil Turismo - https://www.brasil-turismo.com/rio-grande-sul/historia/guerra-farrapos.htm

Caramurus - Exército Imperial

Farroupilhas - Exército dos Farrapos


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Gumercindo Saraiva

Foi um estancieiro, cavaleiro, caudilho e comandante militar gaúcho e importante nome da Revolução Federalista de 1893, onde comandou as tropas rebeldes denominado de maragatos. Gumercindo nasceu em Arroio Grande em 13 de janeiro de 1852, sendo filho de Francisco Saraiva e Propícia da Rosa. Tinha estância na região de Santa Vitória do Palmar, onde conduzia com força e lealdade as suas terras, sendo conhecido como amigo fiel e inimigo perigoso. Foi também capitão de guerra, comissário de polícia e tropeiro. Durante os últimos anos do Império, quando era chefe de polícia daquela localidade, chegou a ser simpatizante da causa republicana, mas os partidários locais o desiludiram. Conhecido também como Napoleão dos Pampas.
Líder caudilho, Gumercindo Saraiva arregimentava rapidamente uma montonera que constituía em uma formação militar geralmente constituída por indivíduos da mesma localidade, que ofereciam seu apoio armado a uma determinada causa. Seu prestígio dividia-se tanto pela amizade com seu ilustre amigo Gaspar Silveira Martins, um dos político mais influentes do Império nos anos que precederam a queda do regime monárquico, como também se dava em parte por seus soldados que o cercavam constantemente. Possuía cerca de quinze mil hectares de terra e milhares de cabeças de gado que se estendiam pela fronteira sul do Rio Grande do Sul. Desde jovem adquiriu agilidade ímpar com o cavalo. Aos dezoito anos se juntou a sua primeira montonera, quando ainda vivia no Uruguai. Muitos que constituíam a sua montonera durante a Revolução Federalista eram falantes de espanhol ou castelhanos que ele conhecera nessa lida na década de 1870 e começo de 1880. Estes eram provenientes da região de San José, e se autodenominavam maragatos devido à origem dos primeiros colonos dessa região, alcunha pela qual ficou célebre o grupo federalista durante as hostilidades. Depois de viver os seus primeiros 30 anos no Uruguai, em 1883 retornou ao Brasil fugindo da justiça A Guerra em que Saraiva entrou para a História teve início com o Golpe de 1889 ou Proclamação da República no Brasil e com a ascensão do governador Júlio de Castilhos, correligionário daqueles que seriam conhecidos como Pica - Paus, em 1892. Nesse período o governo de Júlio de Castilhos entra numa fase de instabilidade no Rio Grande do Sul. O estado se torna um caos, de um lado os castilhistas Pica-Paus, e do outro os federalistas maragatos liderados pelo General João Nunes da Silva Tavares, o Joca Tavares. A inimizade entre Gumercindo Saraiva e Júlio de Castilhos já existia desde a formação da República, quando o Saraiva recusou o convite para chefiar o Partido Republicano no Rio Grande do Sul. A partir daí foi perseguido pelo castilhismo. Seu objetivo buscava a reforma constitucional parlamentarista do então exilado Gaspar Silveira Martins que resolve voltar ao Uruguai onde os rebeldes estavam formando suas tropas. Em 2 de fevereiro de 1893, acompanhado por seu irmão Aparício Saraiva e liderando cerca de quatrocentos cavaleiros atravessou a fronteira pelo povoado da Serrilhada, entrando no Rio Grande do Sul, e juntando-se aos homens do General João Nunes da Silva Tavares, formando assim o Exército Libertador, com um contingente de mais de três mil homens, que em pouco tempo chegaria a doze mil. Consta que um terceiro irmão, Mariano, também teria participado desta revolução. No Uruguai os três irmãos Saraiva, eram conhecidos como Os três de Cerro Largo. Em 4 de abril de 1893 acontece a primeira batalha com as tropas legalistas denominadas Pica-Paus. Depois de vários combates com as forças do governo, percebendo estar diante de um exército melhor preparado e armado, Gumercindo Saraiva parte para a prática de guerrilha, evitando combates convencionais, e dispersando as tropas legalistas para tentar vencê-las depois, em partes, tática esta que deu certo. Gumercindo Saraiva e sua tropa dirigiu-se para Dom Pedrito, iniciando uma série de ataques relâmpagos contra vários pontos do estado, desestabilizando as posições conquistadas pelos legalistas. O governo, autoritário e centralista de Julio de Castilhos, provocou furor na oposição, com a formação de um confronto entre Maragatos e Pica - Paus, a disputa entre centralismo e regionalismo desencadeou uma Guerra Civil no Rio Grande do Sul, estendendo-se para Santa Catarina e Paraná. Em seguida as tropas de Gumercindo Saraiva rumaram ao norte, avançando em novembro sobre Santa Catarina e chegando ao Paraná, sendo detidos na cidade da Lapa, a 60 quilometros de Curitiba. Nesta ocasião, o coronel Gomes Carneiro morreu em fevereiro de 1894 sem entregar suas posições ao inimigo, no episódio que ficou conhecido como o Cerco da Lapa. O almirante Custódio de Melo, que chefiara a Revolta da Armada contra Floriano Peixoto, uniu-se aos federalistas e ocupou Desterro, atual Florianópolis. De lá chegou a Curitiba, ao encontro do caudilho-maragato Gumercindo Saraiva. Após a queda da Lapa, rumou para Curitiba que encontrou completamente desguarnecida, partindo em seguida para Ponta Grossa, onde enfrentou as tropas legalistas que haviam recebido reforços de São Paulo, obrigando-o a recuar, iniciando assim a retirada e seu retorno ao Rio Grande do Sul, agora acossado pelas tropas do governo. Em marcha pelos três estados, desde sua partida de Jaguarão até o retorno ao Sul, o General Gumercindo Saraiva e suas tropas percorreram a cavalo, um trajeto de mais de 3 000 km. Em 27 de Junho enfrentou sua última grande batalha. No dia 10 de Agosto de 1894 morreu com um tiro no tórax, desferido de tocaia por um homem que se encontrava no meio do mato, enquanto reconhecia o terreno na véspera da Batalha do Carovi em área hoje situada no município de Capão do Cipó no Rio Grande do Sul. Dois dias depois de enterrado, no cemitério Santo Antônio de Capuchinhos, atual município de Itacurubi, seu corpo foi retirado da cova, e teve a cabeça decepada. Segundo alguns autores a cabeça foi levada em uma caixa de chapéu ao governador Júlio de Castilhos. Seu corpo, mais tarde, foi novamente sepultado no cemitério municipal de Santa Vitória do Palmar, sem a cabeça. A propaganda de guerra governista na época acusou Gumercindo Saraiva de atrocidades, fato esse que foi desmentido por centenas de testemunhos, inclusive de seus inimigos políticos. Seu sabre se encontra até os dias de hoje no Museu Paranaense em Curitiba.

Por: Diones Franchi

Jornalista e Mestre em História

Fontes:

- Elmar Bones e Tabajara Ruas. A cabeça de Gumercindo Saraiva. 1.ed. Editora Record, 1997. 226 p.

- 1889: A República Não Esperou o Amanhecer, Hélio Silva, Civilização Brasileira, 1972

- A História Ilustrada do Rio Grande do Sul - 2004

 



quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Anita Garibaldi – A heroína de dois mundos

Ana Maria Ribeiro da Silva conhecida como Anita Garibaldi, foi uma importante revolucionária. Participou da Revolução Farroupilha no Brasil e também da Batalha de Gianicolo, pela unificação na Itália. Por lutar na América do Sul e na Europa foi nomeada de “Heroína de Dois Mundos”.
Nasceu em 30 de agosto de 1821 em Morrinhos do Mirim, município de Laguna, Santa Catarina. Era filha de Bento Ribeiro da Silva e Maria Antônia de Jesus Antunes. A família tinha origem humilde e valorizava a cultura e a educação. Quando seu pai faleceu, Anita casou-se aos 14 anos com o sapateiro Manuel Duarte de Aguiar. Era uma jovem de caráter independente e resoluto, que defendia e gostava de participar das questões que promoviam liberdade e justiça no país. Após três anos de matrimônio, o casamento acaba.
Foi durante a Revolução Farroupilha no ano de 1839 que Anita conhece o italiano Giuseppe Garibaldi, que a serviço da República Rio-Grandense, participa da tomada do porto de Laguna, na então província de Santa Catarina. Garibaldi tinha chegado ao Rio de Janeiro em busca de exílio após ser condenado à morte em seu país. Nessa época iniciava no Brasil a Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul, movimento comandado por Bento Gonçalves e ligado aos latifundiários escravistas e separatistas que lutavam pelo fim do Império brasileiro.
Quando Garibaldi soube dessa revolução logo se envolveu no apoio em defesa da causa. Com homens, armas e um veleiro à sua disposição, Garibaldi seguiu para a cidade de Laguna e assim lá conheceu Anita, que já estava envolvida na revolução. Apaixonaram-se a primeira vista e a partir desse momento seguiram sempre unidos em qualquer situação. No dia 20 de outubro de 1839, Anita subiu a bordo do navio de Garibaldi para uma expedição até Cananéia, abandonando definitivamente sua vida para trás. Em batalha, era uma mulher valente e não media esforços: chegou a carregar e disparar canhões na batalha de Laguna e lutou bravamente durante o combate em Imbituba, Santa Catarina.
Apesar de ser destemida, Anita Garibaldi foi capturada pelas tropas do Império durante a Batalha dos Curitibanos, mas conseguiu executar uma fuga em um instante de distração dos guardas, tomou um cavalo e fugiu. Após atravessar a nado o Rio Canoas, foi ao encontro de Garibaldi em Vacaria. Ela realizou essa façanha já grávida de seu primeiro filho.
Em 16 de setembro de 1840, nasceu no estado do Rio Grande do Sul, na então vila e atual cidade de Mostardas o primeiro filho do casal, que recebeu o nome de Menotti Garibaldi, em homenagem ao patriota italiano Ciro Menotti. Doze dias depois, o exército imperial, comandado por Francisco Pedro de Abreu, cercou a casa para prender o casal, e Anita fugiu novamente a cavalo com o recém-nascido nos braços, alcançando um bosque aos arredores da cidade, onde ficou escondida por quatro dias, até que Garibaldi a encontrou.
Em 1841, Bento Gonçalves dispensa Garibaldi, que segue com Anita para Montevidéu no Uruguai, engajando-se na frente da defesa contra o ex-presidente Oribe. Anita, Giuseppe e Menotti mudaram-se para Montevidéu, no Uruguai, recebendo um rebanho de 900 cabeças de gado. Foi no Uruguai que também em 26 de Março de 1842, Anita casa-se com Garibaldi na paróquia de San Bernardino e nascem os outros três filhos do casal: Rosa (1843), Teresa (1845) e Ricciotti Garibaldi (1847). Rosa faleceu aos dois anos de idade por asfixia, por causa de uma infecção na garganta.
Em 1847, Anita foi enviada para a Itália, onde lá, o casal continuou envolvido em lutas para a unificação do país, que na época estava dividido em reinos e repúblicas, além dos territórios pertencentes ao Papa. Sem sucesso na empreitada, são obrigados a fugir de Roma após a derrota na Batalha do Gianicolo. Assim seguem viagem para a Suíça, disfarçados de soldados. Ao passarem pela cidade de San Marino, a embaixada norte-americana ofereceu um salvo conduto para tirar o casal da situação de risco, mas Anita e Giuseppe não aceitaram por acreditarem que uma atitude de “rendição” poderia impactar negativamente o processo de unificação. Continuaram em fuga e Anita adoeceu durante a viagem, na região próxima a província de Ravena. Estava gestante de cinco meses e não resistiu a uma forte crise de febre tifóide, falecendo no dia 4 de agosto de 1849 em Mandriole, Itália. Por estar sendo perseguido pelos austríacos, Garibaldi precisava continuar em fuga e não conseguiu acompanhar o sepultamento da esposa. O revolucionário italiano seguiu viagem, permanecendo exilado dez anos fora da Itália.
Os restos mortais de Anita foram exumados por sete vezes. Por vontade do marido, seu corpo foi transferido a Nice.
Posteriormente, foi erguido um monumento em homenagem a Anita Garibaldi na colina de Gianicolo em Roma em 1932, junto ao local foram enterrados seus restos mortais em definitivo.
A casa onde Anita Garibaldi residiu em Laguna, Santa Catarina, foi transformada em museu aberto, reunindo o acervo histórico das batalhas e objetos que pertenceram à heroína. Foi também homenageada com o seu nome, um município no estado de Santa Catarina, além de ruas, avenidas e diversos monumentos no Brasil, Uruguai e na Itália.
Anita Garibaldi é verdadeiramente uma das principais personagens de nossa história.


Por: Diones Franchi
Jornalista e mestre em História

Fontes:

-BANDI, Giuseppe. Anita Garibaldi (1889).
-OLIVEIRA, Catarina – Infoescola.com Ensino Superior em Comunicação (Universidade Metodista de São Paulo, 2010)
-DUMAS pai, Alexandre. Memórias de Garibaldi (1861, 1931)
-LAMI, Lucio. Garibaldi e Anita: Corsari (1991).