quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

A história da bombacha

A história da bombacha é um dos fatores importantes de nossa cultura gaúcha e brasileira.
O tradicionalismo costuma dividir a história da pilcha masculina em quatro fases: chiripá primitivo, braga e chiripá, chiripá farroupilha e, finalmente, bombacha. Quando portugueses e espanhóis colonizaram o pampa, a vestimenta padrão passou a ser o chiripá indígena, também chamado chiripá primitivo ou chiripá-saia: traje simples, um tecido retangular de couro cru ou algodão que ia até os joelhos, amarrado à cintura e preso por uma tira de couro. O contato com os ibéricos incluiu outros elementos à roupa indígena, como a guaiaca presa à cintura. O chiripá-saia foi usado por muitos anos pelos peões, enquanto os estancieiros, conforme enriqueciam, passaram a adotar roupas europeias. Uma delas foi a braga – calções largos acompanhados de ceroulas de crivo, uma espécie de calça branca justa com franjas finas na barra. No período da Guerra dos Farrapos, o chiripá indígena foi adaptado pelos gaúchos para facilitar a montaria – assim, o tecido, maior, foi passado entre as pernas e amarrado, ficando como um fraldão. Também conhecido como chiripá-fralda, geralmente era acompanhado das mesmas ceroulas de crivo, e foi uma criação pampeana legítima. O chiripá farroupilha foi usado entre 1820 e 1865, foi então que entrou a bombacha.
A história da chegada da bombacha até o sul da América não é precisa, mas alguns pesquisadores procuraram refazer sua trajetória através do tempo. Existe mais de uma versão, e uma delas está ligada à invasão árabe à Península Ibérica, no século VIII: os mouros trajavam bombachas e este hábito foi incorporado pelos nativos, já que o domínio da região durou 600 anos. Assim, a vestimenta teria chegado ao pampa através dos colonizadores, especialmente os espanhóis da região de La Maragateria, ao norte do país.A uma probabilidade para que seja de origem arabe, mas a mais provável é que seja de origem turca. Nessa segunda versão, mais aceita, a bombacha fez seu caminho através de duas guerras: a guerra da Crimeia (1853-1856) e a guerra do Paraguai (1864-1870). Na Crimeia, ingleses, franceses, sardenhos e turcos uniram-se contra a expansão do Império Russo. A industria britânica, com sua produção têxtil, confeccionou bombachas para os aliados turcos durante todo o conflito e ficou com um enorme excedente quando este acabou. Com o início da guerra contra o Paraguai, os ingleses, apoiadores da Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai), venderam aquelas bombachas para os exércitos no Rio da Prata. Ao voltarem para casa, os militares sulinos levaram consigo o novo traje – que se adaptava perfeitamente ao clima temperado e tornava as cavalgadas muito mais confortáveis. De traje militar passou a ser um traje civil que se incorporou ao cotidiano sul-americano. No início, a bombacha só era usada por peões no trabalho nas estâncias, mas logo foi adotada pelos mais ricos, já que se adequava ao estilo de trabalho e de vida predominante no RS. Entre o fim do século XIX e o XX, o gaúcho começou a sair da margem, num processo nacional de valorização do homem regional. A bombacha, seu traje diário, foi valorizada junto com ele. Nos anos 1940-50, principalmente, o homem campeiro virou símbolo da regionalidade cultural, e o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) difundiu a bombacha como traje identitário do gaúcho rio-grandense.
Assim a bombacha pode ser larga ou mais estreita, com ou sem favos (chamados “de mel” ou “de abelha”), de brim, linho, algodão, tergal ou outro tecido – mas sempre com punho abotoado no tornozelo. De acordo com especialistas existem particularidades em cada região: na fronteira, elas costumam ser bem largas e com favos, chamadas também “de dois panos”; no Planalto Médio e Missões, são médias, nem muito largas, nem muito justas; no litoral e na Serra, são estreitas, quase calças-bombachas, conhecidas também como bombachas campeiras. Geralmente são usadas com botas altas, botas sanfonadas ou alpargatas.
Em 1989, a indumentária gaúcha passou a ser considerada traje oficial e social do Rio Grande do Sul através da Lei Estadual da Pilcha, nº 8.813, desde que seguidas as recomendações do MTG. Mas, quando saem das bailantas e cavalgadas e entram no ambiente urbano (coisa cada vez mais comum), as bombachas são adotadas por homens e mulheres, indiscriminadamente, preocupados apenas em valorizar a cultura daqui.
Fonte:

A Lenda do Arroz

Conta-se que, em 1637, quando os bandeirantes de Raposo Tavares devastaram o atual município de Cachoeira do Sul, no Rio Grande do Sul, destruindo todos os aldeamentos indígenas que os Jesuítas haviam fundado, conseguiu sobreviver apenas um jovem índio chamado Tuti.
Desesperado com a perda dos seus pais e de sua morada, Tuti sentava-se à margem do Rio Jacuí e via ali noites e dias nascerem e morrerem.
O índio chorava. Chorava de fome, chorava de dor, e de saudades.
E tudo parecia chorar com ele; o sol era pálido, a noite era negra, as florestas haviam se curvado e as águas endoideceram.
Seis sóis eram passados. Tuti, sentado no mesmo lugar, broqueado de fome e de dor, com a face chicoteada pelo vento e os olhos cravados ao céu, como a pedir clemência, enxergou um vulto.
Neste momento tudo cessou. As águas continuaram enfurecidas, mas em profundo silêncio, o vento adormecera nas moitas e no céu, como que prevendo felicidade, a lua sorria.
Sobre as águas, o vulto aproximava-se de mansinho.
Vulto de mulher, trazia em suas vestes a cor do rio com todos os seus peixes, a cor do céu com suas estrelas, a cor das matas com suas aves.
Trazia o sol em seus cabelos, e seus olhos luziam como diamantes.
Deixando rastros luminosos nas águas enfurecidas do rio, aproximava-se mais e mais, até chegar frente ao índio desconsolado.
Então, falou-lhe:
– Tenho aqui em minhas mãos a semente que saciará a tua fome e de todos que virão.
Tome-as.
Eu as recolhi de tuas próprias lágrimas caídas no rio.
Dizendo isto, o vulto luminoso deixou escorrer de suas mãos uns poucos pingos dourados, os quais o índio, com gestos selvagens, colheu.
O vulto sumiu. Um violento temporal desabou.
O índio de tão fraco desmaiara, apedrejado pelo granizo caído do céu.
E as sementes foram levadas pelas águas.
Após noites e dias de chuva, quando o sol, radiante, voltou, Tuti encontrou uns cachos, já dourados, com as sementes.
Colheu-os, preparou-os e saboreou.
Era uma plantinha frágil, mas que lhe dera muita vitalidade.
Hoje chamamos esta plantinha-ternura de ARROZ.
E para maior mistério, à meia-noite, às margens do Rio Jacuí, há um profundo silêncio, embora as águas desçam endoidecidas.
Isto, talvez, em homenagem à Deusa das Águas, que saciou a fome de Tuti e nos semeou o arroz.
Observação: Essa é uma das lendas sobre o arroz!!!
Fonte: Jornal do Povo – 10 e 11/9/2005 – página 13 / http://www.guiacachoeira.com.br/?url=15



A 1ª Carta dos farroupilhas ao Império

A Revolução Farroupilha, ou Guerra dos Farrapos, como também ficou conhecida, foi motivada por diversos fatores, incluindo o alto preço de impostos sobre produtos produzidos na então província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
Insatisfeitos pelas cobranças indevidas e pelos presidentes da província não serem gaúchos e desse modo não importarem-se com o futuro do Rio Grande do Sul, um grupo de estancieiros optou pelo ato que daria início a Revolução.
Cerca de 200 homens comandados por Bento Gonçalves da Silva, Onófre Pires e José Gomes de Vasconcelos Jardim rumaram de Pedras Brancas (atual município de Guaíba) em direção a Porto Alegre, tomando a cidade. Bento Gonçalves e Gomes Jardim entraram triunfantes em Porto Alegre, após o presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, fugir de navio para Rio Grande
O que muitos não sabem é que o real motivo da tomada da capital não era a formação de um novo país, mas sim que o Império respeitasse e desse valor ao Rio Grande do Sul.
Essa posição fica evidenciada numa carta enviada por Bento Gonçalves ao regente do Império, Diogo Feijó, no qual ele esclarece que depôs o presidente Fernandes Braga e conclama condições mais dignadas para o Rio Grande do Sul.
A carta
"Senhor. Em nome do povo do Rio Grande, depus o governador Braga e entreguei o governo ao seu substituto legal, Marciano Ribeiro. E, em nome do Rio Grande, eu lhe digo que, nesta província extrema, afastada dos corrilhos e conveniências da Corte, dos rapapés e salamaleques, não toleramos imposições humilhantes, nem insultos de qualquer espécie. O pampeiro destas paragens tempera o sangue rio-grandense de modo diferente de certa gente que por aí.
Nós, rio-grandenses, preferimos a morte, no campo áspero da batalha, às humilhações nas saias blandiciosas do Paço do Rio de Janeiro. O Rio Grande é a sentinela do Brasil, que olha vigilante para o Rio da Prata. Merece, pois, mais consideração e respeito. Não pode nem deve ser oprimido por déspotas de fancaria.
Exigimos que o governo imperial nos dê um governador de nossa confiança, que olhe pelos nossos interesses, pelo nosso progresso, pela nossa dignidade, ou nos separaremos do centro e, com a espada na mão, saberemos morrer com honra ou viver com liberdade.
É preciso que V.S. saiba, Sr. Regente, que é obra difícil, senão impossível, escravizar o Rio Grande, impondo-lhe governadores despóticos e tirânicos. Em nome do Rio Grande, como brasileiro, eu lhe digo, Sr. Regente, reflita bem, antes de responder, porque da sua resposta depende talvez o sossego do Brasil. Dela resultará a satisfação dos justos desejos de um punhado de brasileiros que defendeu, contra a veracidade espanhola, uma nesga fecunda da pátria, e dela também poderá resultar uma província ou a formação de um Estado novo dentro do Brasil". Bento Gonçalves
Contudo, a resposta do Império foram atos de represália aos farrapos, que decidiram seguir a Revolução Farroupilha.
Fonte:
História do Rio Grande do Sul - RBS

 


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A Carreta de boi

A Carreta ou Carro de Boi é um dos mais primitivos e simples meios de transporte, tendo sido muito utilizado no Rio Grande do Sul.
Desde as origens da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul até a chegada do trem e do automóvel, o Estado andou a reboque dos carros de boi.
Conhecida como Boeiro” em Portugal, “cambona” em algumas regiões do interior do Brasil, o carro de boi e “carreta” nos pampas gaúchos já era conhecido dos chineses e hindus. Também os egípcios, babilônios, hebreus e fenícios utilizavam o transporte “via bois”. Mais tarde, os europeus, quando se lançaram à colonização da África e da América, fizeram do boi um item indispensável da carga das caravelas.
Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, trouxe consigo carpinteiros e carreiros práticos, e, em 1549, já se ouvia o “cantador” nas ruas da nascente cidade de Salvador/BA. A presença do carro de boi também é mencionada no “Diálogo das Grandezas do Brasil”, de Ambrósio Fernandes Brandão: “É necessário que tenha (…), 15 ou 20 juntas de bois com seus carros necessários aparelhados (…)”, e mais adiante, “A vaca, sendo boa, é estimada a (…), e o novilho, que serve já para se poder meter em carro, a seis e a sete mil réis (…)”.
Nos primeiros tempos da colonização, além de manter em movimento a indústria açucareira da roça ao engenho, do engenho às cidades, o carro de bois mobilizou a maior parte do transporte terrestre durante os séculos XVI e XVII. Transportavam materiais de construção para o interior e voltavam para o litoral carregados com pau-brasil e produtos agrícolas produzidos nas lavouras interioranas. No Brasil colonial, além dos fretes, o carro de bois conduzia famílias de um povoado para outro muitas vezes transformado em “carro-fúnebre” e os carreiros precisavam lubrificar os “cocões” para evitar a cantoria em hora imprópria.
No início do século XVI, o carro de bois era ainda absoluto no transporte de carga e de gente. No Sul, no Centro, no Nordeste, era indispensável nas fazendas. No Rio Grande do Sul, as carretas conduziam para a Argentina e para o Uruguai a produção agrícola. Foi utilizada durante a guerra dos farrapos, no transporte também das mulheres, feridos e de armamento. Na Guerra do Paraguai, os carretões transportaram munições, mantimentos e serviram ainda como ambulâncias.
Em meados do século XVIII, entretanto, com o aparecimento da tropa de burros, o carro de bois perdeu sua primazia. Mais leves e mais rápidos, os muares não exigiam trilhas prévias e terrenos regulares. No final do século, vieram os cavalos para puxar carros, carroças e carruagens, e o carro de bois foi proibido por lei de transitar no centro das cidades, ficando o seu uso restrito ao meio rural.
Os veículos motorizados aceleraram o processo de decadência do carro de bois no Brasil, na Argentina, em Portugal, na Espanha, na Grécia, na Turquia, no Irã, na Indonésia e na Malásia. Contudo, em todos esses lugares, artesãos continuaram a construí-los e a aperfeiçoá-los e, graças a essa gente, o carro de bois persiste na sua marcha pela história.
As carretas riscaram os primeiros caminhos do pampa, ajudaram a fundar cidades e abastecer bolichos. Transportaram mantimentos em tempos de paz, armas em períodos de guerra, sempre ao passo vagaroso do gado. Em solo gaúcho, as razões para o abandono da carreta incluem a lentidão do gado e as agruras da viagem, que sujeitam o condutor a intempéries, a dormir e comer ao relento, sem banho ou troca de roupa.
Hoje, um dos mais tradicionais meios de locomoção do gaúcho está em extinção, mas permanece nas memórias do pampa.

Por: Diones Franchi 

Referências:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2012/08/zero-hora-revela-o-cotidiano-dos-ultimos-carreteiros-do-estado-3865199.html
http://naboleia.com.br/carro-de-boi-a-origem-do-transporte/




segunda-feira, 23 de abril de 2018

A lenda da Lagoa Vermelha

A primeira tentativa dos padres jesuítas, que resultou na fundação de 18 Povos Missioneiros no Rio Grande do Sul, foi fracassada. Os bandeirantes de Piratininga, que haviam arrasado as reduções do Guairá caçando e escravizando índios para a escravidão das lavouras de cana-de-açúcar de São Paulo e Rio de Janeiro, quando souberam que os padres tinham vindo mais para o sul e erguido suas aldeias no Tape, vieram aqui fazer o que sabiam fazer. Assim e aos poucos, os padres tiveram que refluir para o oeste, fazendo agora na volta o mesmo caminho que tinham feito na vinda. 
E nessa fuga tratavam de levar consigo tudo o que podiam carregar. O que não podiam, queimavam ou enterravam. Casas, plantações, até igrejas foram incendiadas, para que nada ficasse aos bandeirantes. 
Pois diz que numa dessas avançadas pelo Planalto, no rumo da Serra, uma carreta carregada de ouro e prata, fugiu das Missões.
Ali vinha objetos das igrejas, como candelabros, castiçais, moedas, ouro em pó, um verdadeiro tesouro cujo peso faziam os bois peludearem. Com a carreta, alguns índios e padres jesuítas e atrás deles, sedentos de sangue e ouro, os bandeirantes. 
Ao chegarem às margens de uma lagoa, não puderam mais. 
Desuniram os bois e atiraram a carreta com toda a sua preciosa carga na lagoa, muito profunda. Os animais sob o peso da carga, puxados pelos índios, entravam na lagoa, submergindo, morrendo e sepultando consigo no líquido da lagoa a preciosa carga. 
Daí então para cá, as águas tornaram-se de uma cor vermelho amarelada, que nunca mudou de tom, simbolizando o ouro sagrado. 
A lagoa ficou perene em tudo, nunca mudou de cor, nunca aumentou de volume e também não diminui com secas; não transborda e a sua quietude no ambiente da plaga campestre constitui a proteção de uma riqueza inviolável e sagrada, confiada à sua perenidade. 
Até hoje, ninguém pode desvendar o mistério da lenda. 
A lagoa é bem profunda, existe muito lodo no leito e a população respeita com amor religioso o preceito da lenda. Essa fé à lenda afasta os ambiciosos e ninguém se aventurou em profaná-la. 
Assim foi e assim será, porque, segundo a lenda, se um dia alguém esgotar a fonte sagrada, secará as águas dos rios e tudo se transformará em deserto. 
Ao seu redor, cresceu uma bela cidade, que tomou seu nome – Lagoa Vermelha. E cada vez que um dos seus moradores passa na beira das águas coloradas, lembra que ali ninguém se banha, nem pesca, pois, conforme a lenda, a Lagoa não tem fundo.

Lagoa Vermelha

Fontes:

http://www.lagoavermelha.rs.gov.br/municipio/historia-e-lenda/
http://www.lendas-gauchas.radar-rs.com.br/lagoa_vermelha.htm

terça-feira, 27 de março de 2018

Mulher Farrapa

Quando se fala em Revolução Farroupilha, logo se pensa nos homens que lutaram contra o Império durante dez anos, mas esta guerra teve centenas de heroínas anônimas. Mulheres que apesar do sofrimento por ver o marido e os filhos partirem para a luta, sem saber se voltariam vivos, tiveram que assumir suas casas e estâncias para assim manter a economia e a sociedade.
A Revolução Farroupilha colocou a mulher num encontro ingrato e arriscado com a vida, porém, por mais ameaçadoras, que se tenham apresentadas as circunstâncias, ela sempre soube manter-se firme: quanto mais a situação era adversa, mais a mulher soube se transformar na forja sagrada das convicções do herói farroupilha. 
A mulher guerreira ficou conhecida “vivandeira” ou chinas de soldado que acompanhavam os homens nos campos de batalha, cuidando de sua roupas e comida. “Andavam à cauda das colunas militares, a cavalo ou em carretas, incitando os soldados às lutas, curando suas feridas ou aquecendo-lhes o corpo e a alma”. 
A mulher estancieira foi a mulher que permaneceu na estância, administrando as lides campeiras e domésticas, tomando conta do lar, dos filhos, e cuidando dos negócios do homem ausente, que rezava pelos vivos e chorava os mortos. Era aos olhos de Deus e da sociedade patriarcal – a mãe, a esposa, a filha – permanecendo em casa, aguardando ansiosa o desfecho da guerra e o retorno do guerreiro. A história também registra a mulher farroupilha do decênio heróico, que foi a mulher que de uma forma ou de outra figurou na história oficial do decênio heróico. Dentre elas, citamos Anita Garibaldi (Ana Maria de Jesus), mulher intensamente feminina, ativa, forte de ânimo, de decisões rápidas, uma exímia cavaleira, que despertou em Giuseppe Garibaldi um fortíssimo sentimento, mesmo nos poucos contatos que tiveram em Santa Catarina, quando da invasão de Laguna pelas tropas farroupilhas; além de Maria Josefa da Fontoura Palmiro, que promovia reuniões políticas em sua casa, em Porto Alegre, em apoio a Bento Gonçalves e aos Farrapos, e também defendia a libertação dos escravos e a causa farroupilha. Foi neste dificílimo momento, que o valor da mulher farroupilha foi testado, fazendo com que seu coração vivenciasse as inúmeras novas circunstâncias, levando-a a sujeitar-se às necessidades, aos infortúnios; mas,ela foi competente em sua função e incansável no desempenho do seu papel. Encantadora e generosa, companheira, não se deixou arrastar por convicções derrotistas, deixando na história um admirável perfil, abrindo perspectivas esplêndidas de esperança para seu companheiro, com admiráveis e imprescindíveis fatores decisivos e determinantes da inacreditável persistência dos farrapos. Numa época de revolta e de falta de carinho, essas mulheres nunca deixaram a afetividade de lado, pois sempre se reuniam nas estâncias e se uniam para rezar pelos vivos ou chorarem pelos mortos. 
A mulher farroupilha, com seu sentimento de compreensão e solidariedade, muito auxiliou o desenvolvimento da semente da República Rio-grandense, fazendo frutificar em heroísmo, a alma da gente farroupilha. Ela soube avaliar e enfrentar o perigo, não para receá-lo e sim para combatê-lo. Esta foi a mais sublime e valorosa lição feminina, raramente descrita com a merecida justiça. Este é o lado da revolta que não é muito enfatizado, mas que sem o auxílio dessas mulheres para seus maridos, provavelmente, a revolta dos farrapos não teria alcançado tanto destaque. Mesmo que a presença do homem se mostre como fundamental nos conflitos, o apoio das mulheres se revela como um papel importante no desenrolar dos mesmos, sobretudo, no reforço dos laços de solidariedade e no apoio prestado entre os que estavam envolvidos diretamente na guerra.

Por: Paulo Mena - Pesquisador



domingo, 5 de novembro de 2017

Dona Caetana – A primeira dama da República Rio - Grandense

Por: Diones Franchi

Cayetana Juana Francisca Garcia y Gonzáles nasceu em Melo no Uruguai em 6 de agosto de 1798. Era conhecida como Dona Caetana, a esposa de Bento Gonçalves, líder do movimento farroupilha no Rio Grande do Sul, e presidente da República Rio-Grandense.
Era filha de Narciso Garcia, natural da Espanha, e de dona Maria González, natural da localidade do Povo Novo, na cidade do Rio Grande.
Dona Caetana casou – se com Bento Gonçalves em 7 de dezembro de 1814, com apenas 16 anos e por esse fato é considerada a 1ª Primeira-Dama da República Rio-Grandense.
Em sua juventude Dona Caetana era considerada uma bela uruguaia de olhos verdes, sendo que jamais renunciou a língua pátria. Chamava a atenção em sua maneira de vestir-se, sempre com belos vestidos. 
Dizia uma “lenda” que Bento Gonçalves tratava Caetana de forma carinhosa e que o chamava de “Minha Uruguaiana” pelo fato de Caetana ser uruguaia. E que isto seria uma das denominações da origem do nome da cidade de Uruguaiana. De fato isso não tem comprovação histórica e nem está nos anais daquele município.
Mas na época o povoado da futura Uruguaiana estava sobre domínio dos farroupilhas, constando apenas o decreto n° 21, do General Bento Gonçalves da Silva, então Presidente da República do Rio Grande de Piratini, que autorizou a criação de uma "capela curada" denominada "Capela do Uruguai" no "Capão do Tigre" cujo território, assim como o de Santana faziam parte de 2° distrito de Alegrete.
O novo povoado chamava-se, no início, Santana do Uruguai, por ser uma passagem de tropas e comerciantes que costumavam atravessar o rio Uruguai, sendo mais tarde mudado para Uruguaiana.
Nada que comprovasse a denominação a esse fato, apenas que o local teve grande influência dos farrapos no período da revolução, fez se criar algumas lendas e literaturas romanceadas ligadas a Caetana.
Da sua união com Bento Gonçalves nasceram Perpétua Justa Gonçalves da Silva, Joaquim Gonçalves da Silva, Bento Gonçalves da Silva Filho, Caetano Gonçalves da Silva, Leão Gonçalves da Silva, Marco Antônio Gonçalves da Silva, Maria Angélica Gonçalves da Silva e Ana Joaquina Gonçalves da Silva.
Caetana foi personagem na literatura e na televisão, estando presente em romances históricos, como Os Varões Assinalados de Tabajara Ruas, A Guerra dos Farrapos de Alcy Cheuiche, A Casa das Sete Mulheres e Um farol no pampa, ambos de Letícia Wierzchowski. É mencionada também em correspondências do marido e descrita em registros históricos.
Sua existência tornou-se conhecida nacionalmente com a exibição, em 2003, da minissérie da Rede Globo, A Casa das Sete Mulheres, baseada em livro do mesmo nome, tendo sido interpretada pela atriz Eliane Giardini.
Faleceu em sua estância da Figueira, na casa da filha Maria Angélica e do genro Antônio José Centeno no município de Cristal no Rio Grande do Sul, em 30 de março de 1872 na época município de Camaquã. Seus restos estão sepultados em um jazigo no cemitério São João em Camaquã no Rio Grande do Sul.

Fontes:

Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves. Parlamentares Gaúchos – Atas e Resoluções da Primeira Legislatura da Assembleis Provincial. (1835-36). 2005
A Guerra dos Farrapos – Alcy Cheuiche. 2003
Prefeitura Municipal de Uruguaiana - http://www.uruguaiana.rs.gov.br/pmu_novo/historia

 Imagens de Bento Gonçalves e Dona Caetana - Museu de Camaquã - RS

Túmulo de Dona Caetana -Camaquã - RS