sábado, 25 de março de 2017

Escravo de Saladeiro

Por: Diones Franchi

No Brasil do Império, existiram muitos tipos de escravos, para as mais diversas funções, desde criados que ficavam em casa até escravos que faziam funções nas lavouras. Mas existiu um tipo de escravo que trabalhava constantemente nas charqueadas do Rio Grande do Sul. Eles se chamava escravo de saladeiro, sendo responsável pela salga da carne.
A Charqueada era a denominação da área da propriedade rural em que se produzia o charque,um dos principais produtos gaúchos da época, sendo normalmente composto por galpões cobertos onde a carne salgada era exposta para o processo de desidratação. A indústria saladeiril e o ciclo do charque do século XIX, deixaram suas marcas no extremo sul do Brasil.
Toda a produção de charque, como de resto as produções mineradora e agrária da época, no Brasil era baseada no trabalho dos escravos. Hoje, poucas das antigas charqueadas existem, apenas as instalações , mantidas como marco turístico regional.
Em 1820, eram mais de 20 charqueadas, sendo a cidade de Pelotas o pólo do estado na produção do charque, chegando num total de 400 mil cabeças de gado por ano.
O escravo de saladeiro era chamado desta maneira por que os negros eram caracterizado pelas mãos cortadas pelo sal e por suas costas cortadas pelo relho do carrasco. Muitos tiveram os olhos cegados pelos raios do sol que refletiam no sal. Era comum também o sofrimento desses escravos, devido seus garrões sangrarem por causa do sal, exposto ao sol. Alguns escravos eram sepultados entre o esterco e o sangue dos animais. Era um trabalho árduo que começava na madrugada e chegava até a noite.
O fim deste martírio e das charqueadas acabaram devido a abolição da escravatura, pois houve o desaparecimento dos compradores que com o charque alimentavam seus escravos nas mineração do ouro de Minas Gerais e plantações de cana-de-açúcar na América Central e América do Sul.
Outo motivo, foi o surgimento dos frigoríficos, na década de 1910. Em 1918, já restavam apenas cinco charqueadas em Pelotas. A charqueada foi trocada pela produção de arroz, hoje uma das maiores produções do estado.
O escravo de saladeiro ficou com as cicatrizes de um tempo em que o boi morria mas seu sangue vertia junto com a escravidão.

Fonte:
DA FONTOURA MARQUES, Alvarino. Episódios do Ciclo do Charque.
História do Rio Grande do Sul, RBS Editora.
Ver a música "Escravo de Saladeiro" - Neto Fagundes.



domingo, 29 de janeiro de 2017

A lenda da Lagoa da Corneta

Por: Diones Franchi

Tudo começa em 17 de março de 1836, próximo de onde surgiria o município de Rosário do Sul. À frente de 800 farrapos, o coronel José de Almeida Corte Real foi envolvido e desbaratado pelo astuto Bento Manoel Ribeiro. Corte Real deveria ter esperado o reforço de Bento Gonçalves, que estava perto, mas aceitou bater-se acreditando numa vantagem de que não dispunha.
A falta de cautela dos farroupilhas foi desastrosa: o imperial Bento Manoel contou 200 prisioneiros, entre eles Corte Real, e dezenas de mortos, incluindo o soldado corneteiro do clarim. Parte deles afogou-se na lagoa durante a fuga, ignorando que não dava pé, embora aparentasse, e segue parecendo ser rasa.
O episódio alterou a vida na região, com desdobramentos que ainda perduram. Situada entre a Vila Carmelo e o Rio Santa Maria, a então Lagoa Funda foi rebatizada de Lagoa da Corneta, em homenagem ao clarim farroupilha. E suas águas plácidas passaram a emitir ecos que continuam surpreendendo até os dias de hoje.


A batalha da Lagoa da Corneta


No dia 17 de marco de 1836, as tropas de Bento Manoel, que estava bandiado para o lado imperial naquele momento, travaram uma batalha contras as tropas farroupilhas do comandante Corte Real que comandava uma coluna de 800 homens. Esta batalha aconteceu em Rosário do Sul, onde Corte Real acampou sua tropa na margem esquerda do rio, pois ele estava em perseguição a tropa de Bento Manoel. O que Corte Real não esperava é que Bento Manoel que estava sendo perseguido, receberia reforços com as forças legalistas de Antonio Medeiros Costa e Joca Tavares e do experiente coronel Manoel Luis da Silva Borges. Essa força parte do Passo do Dom Pedrito e desce costeando o Rio Santa Maria, de caçado Bento Manoel passa a ser caçador, pois estão em seu comando mais de 800 homens. Corte Real recebe a noticia em seu acampamento, que o inimigo marcha em sua direção. Corte Real então transpõe sua tropa para outro lado do rio, escolhe o terreno e espera o inimigo. Alguns companheiros lhe aconselham a esperar reforços dos generais Bento Gonçalves e de João Manoel de Lima e Silva, que estavam no Curral de Pedras. O jovem Corte Real não quis esperar, e não temia o inimigo. Bento Manoel e Silva Tavares ordenam o ataque, sendo que a cavalaria estava a comando de Silva Borges e de seus filhos José Luis e Manoel Luis Osório, futuro patrono da cavalaria. Bento Manoel dando ordens foi conduzindo o ataque contra a tropa de Corte Real, sendo que o ataque foi acirrado, mas as forças farrapas não conseguiram resistir ao exército imperial. A desordem se generalizou e muitas baixas tombaram a beira da Lagoa da Corneta. Um grupo de farrapos no desespero tentou atravessar a lagoa, sem conhecer sua profundidade. Entre os vários que morreram afogados, estava o corneteiro da tropa farroupilha. Abandonado por alguns de seus companheiros, Corte Real se viu cercado por um grupo de legalistas, a mando do tenente José Luis Osório, que gritou "Renda-se patrício, entregue-me a espada que lhe garanto a vida", e Corte Real rendeu-se. Bento Manoel contou 200 prisioneiros e mortos atingiram o número de 150.
Um monumento foi erguido em homenagem aos 150 mortos no dia 17 de março de 1836, entre eles o do bravo corneteiro que morreu afogado na Lagoa, também chamada de Lagoa Funda.

 Lagoa da Corneta - Rosário do Sul - RS

Monumento Farroupilha na Lagoa da Corneta

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Corte Real - O bravo farroupilha

Afonso José de Almeida Corte Real foi um militar que se destacou na Guerra dos Farrapos. Nasceu em Rio Pardo em 15 de novembro de 1805. Era filho do Capitão dos Dragões do Rio Pardo Francisco de Borja de Almeida Corte Real. Combateu na Guerra Cisplatina como cadete, participando da Batalha do Passo do Rosario que resultou na independência do Uruguai.
Participou na Revolução Farroupilha, como um dos mais ativos combatentes farrapos, Por ocasião da adesão do coronel Bento Manuel Ribeiro pela primeira vez ao Império, Corte Real, com 27 anos, foi feito coronel da Guarda Nacional. Saiu em campanha com o cunhado major João Manoel de Lima e Silva, ao encalço de Bento Manuel que foi batido em Capané. Deixado no comando de uma tropa para observar Bento Manuel, Corte Real, jovem impetuoso, decidiu atacar o experimentado Bento Manuel sem esperar Bento Gonçalves.
Era excelente soldado portando qualquer arma que fosse, tinha uma fibra notória pelos ideais farroupilhas.
Foi Ministro do Interior da República em Piratini, tendo como escriturário José lgnácio Moreira Filho.
Participou de diversas ações como a Batalha do Seival, sendo preso na Batalha de Fanfa e levado ao Rio de Janeiro como prisioneiro. Recluso no Forte de Santa Cruz fugiu um ano depois em companhia do Coronel Onofre Pires. 
Foi morto aos 34 anos numa emboscada no arroio Velhaco as margens do Guaíba e da Lagoa dos Patos, em 11 de junho de 1840, na casa da fazenda de Marcos Alves Pereira Salgado, por uma força imperial, comandada por João Patrício de Azambuja. 
Segundo uma versão Corte Real teria reagido e sido morto com um tiro na testa, outra versão menciona que confundiu o exército como sendo de Neto e foi morto com um tiro de flanco que lhe atravessou os pulmões e o fez cair morto no corredor da fazenda.
Corte Real está sepultado na catedral da cidade de Viamão e a fazenda onde ele foi morto, hoje chama-se Fazenda Barba Negra.

Fazenda Barba Negra - Barra do Ribeiro - RS
Local onde Corte Real foi morto pelos imperiais

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Jornal Farroupilha

O Jornal “O Povo” foi, o mais importante jornal dos farroupilhas e o periódico oficial da República Rio-grandense. Se auto intitulava um "jornal político, literário e ministerial da República Rio-grandense".Era editado pelo jornalista Luigi Rossetti e organizado por Domingos José de Almeida. Para iniciar o jornal Domingos comprou as prensas em Montevidéu com o produto da venda de 17 escravos de sua propriedade. A tipografia e a redação foram inicialmente instaladas na mesma casa onde Rossetti morava com Giuseppe Garibaldi, localizada hoje na Avenida Bento Gonçalves nº 182, em Piratini a primeira capital farroupilha. Essa casa foi construída entre 1830 e 1832, e na época era localizada na antiga Rua Clara. Um mês e meio depois de sua fundação os exemplares do jornal foram proibidos de circularem em Porto Alegre que detinha as tropas imperiais.
O Jornal O Povo foi o primeiro periódico publicado depois da proclamação da República Rio-Grandense, tendo sua primeira publicação em 1° de setembro de 1836 até 6 de março de 1839 na cidade de Piratini. Com a mudança da capital da república o jornal transferiu-se para Caçapava do Sul continuando a ser editado até 22 de maio de 1840. Foi brevemente editado por Giovanni Battista Cuneo, após a saída de Rossetti, pouco menos de um mês antes do término do jornal. Logo após a tipografia farroupilha foi atacada por tropas imperiais e destruída. 
O jornal farroupilha era bissemanal, circulando às quartas-feiras e aos sábados, quando não havia interrupção devido a circunstâncias da guerra. 
O Jornal O Povo durou mais tempo e teve mais números de edições publicadas do que o jornal farroupilha anterior, intitulado de O Mensageiro que tivera pouco mais de um ano de atividade, entre 22 de abril de 1835 e 3 de maio de 1836. 
O Jornal O Povo teve 160 números e se notabilizou como o instrumento de voz dos farroupilhas ao povo sul-rio-grandense.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lobisomem do Cemitério

Aproximadamente na década de 70, na rua 2 de Novembro, onde até hoje se encontra o Cemitério Católico da cidade de Rio Grande, atuava o famoso “Lobisomem do Cemitério”.
Pessoas que passavam tarde da noite por ali diziam que um estranho bicho aparecia sempre a meia noite. Assim que alguém passava, ele pulava do alto muro do cemitério e assustava as pessoas. Os que eram assustados por ele, revelavam que o bicho era meio homem, meio animal. Foi a partir desse depoimento que as pessoas começaram a acreditar que se tratava de um lobisomem. Notaram também que o bicho uivava quando agia.
Mas o segurança da Viação Férrea (que ficava em frente ao Cemitério) não acreditava no que estava acontecendo. Então ele resolveu vigiar uma noite inteira o cemitério para ver se o que falavam era verídico. Assim que deu meia noite em seu relógio ele ficou mais atento em tudo que estava em sua volta. Foi aí que ele ouviu um uivo muito alto, no instante uma senhora passava pela frente do cemitério (uma mendiga), e o lobisomem saia do muro. O segurança começou a atirar, e o lobisomem saiu em disparada.
Desse dia em diante nunca mais se ouviu falar nele, mas nada dura para sempre, a qualquer momento pode aparecer um para voltar a assustar a cidade.

Nota: O lobisomem é um dos mais populares monstros fictícios do mundo. Suas origens se encontram na mitologia grega, porém sua história se desenvolveu na Europa. A lenda do lobisomem é muito conhecida no folclore brasileiro e principalmente no Rio Grande do Sul, sendo que algumas pessoas, especialmente aquelas mais velhas e que moram nas regiões rurais, de fato creem na existência do monstro.
A figura do lobisomem é de um monstro que mistura formas humanas e de lobo. Segunda a lenda, quando uma mulher tem 7 filhas e, depois, um homem, esse último filho será um Lobisomem.
Quando nasce, a criança é pálida, magra e possui as orelhas um pouco compridas. As formas de lobisomem aparecem a partir dos 13 anos de idade. Na primeira noite de terça ou sexta-feira após seu 13º aniversário, o garoto sai à noite e no silêncio da noite se transforma pela primeira vez em lobisomem e uiva para a Lua, semelhante a um lobo.
O Lobisomem é uma lenda gaúcha que permite outras versões pelas cidades do Rio Grande do Sul. Ela faz parte da cultura gaúcha e das memórias do pampa.


A batalha "mais sangrenta e gentil" da Revolução Farroupilha

A Revolução Farroupilha se comemora no dia 20 de setembro, data em que os farroupilhas tomam e cercam a cidade de Porto Alegre, mas a batalha que deu fama aos farroupilhas por sua hombridade foi sem dúvida a a batalha de São José do Norte.
Bento Gonçalves que estava no cerco à cidade de Porto Alegre, traçou com seus comandantes um ataque surpresa a cidade de São José do Norte, que estava sob o domínio imperial. O objetivo era através de São José do Norte, conseguir invadir a cidade de Rio Grande e tomar seu porto marítimo.
Bento Gonçalves que havia deixado o cerco de Porto Alegre, sob o comando de David Canabarro, assumiu o comando das tropas que rumaram em direção a São José do Norte, com o apoio de seus comandantes, Domingos Crescêncio que comandava a divisão de infantaria, seu primo Onofre Pires no comando da cavalaria e Giuseppe Garibaldi comandando um esquadrão de infantaria, do qual também faziam parte seus marinheiros. No total o numero de soldados farrapos que partiram para esta batalha, chegava em torno de mil homens. Na madrugada de 16 de julho de 1840, desferiram um ataque surpresa as tropas imperiais comandadas pelo coronel Antônio Soares Paiva, sendo que os imperiais foram pegos de surpresa, mas reagiram ferozmente ao ataque. Foram eles favorecidos por uma tempestade que caiu durante a batalha e impediu o avanço dos farrapos. Mesmo assim a batalha durou horas deixando muitas baixas dos dois lados.
A decisão crucial do desfecho desta batalha ficou nas mãos de Bento Gonçalves que teve que tomar uma escolha para sair vitorioso ou recuar e desistir da tomada da cidade. A solução seria atear fogo na cidade obrigando a retirada das tropas imperiais. Essa decisão teria um alto preço, pois acabaria atingindo toda a população que residia na cidade e causaria muitas mortes.
Tudo levava a crer que os farrapos, em maior número venceriam. Bento Gonçalves reuniu os oficiais e perguntou como poderiam tomar definitivamente a vila. A resposta: deveriam incendiar São José. Apavorado com a possibilidade de destruição e de mais mortes, Bento demonstrou grandeza: “Por tal preço não quero a vitória”. E ordenou a retirada do quase vitorioso exército farroupilha. (URBIM. 2008. p. 130).
Seria praticamente a grande tentativa dos farrapos nos campos de batalha e a última chance de tomada do porto de Rio Grande. 
Nos anos seguintes os farrapos começaram a viver momentos difíceis na guerra, por vários motivos como o desgaste de longos anos de guerra, dificuldade de recrutar novos soldados, intrigas que começaram a surgir internamente e uma posição mais dura dos imperiais em relação à revolta que não tinha fim na província.
A tentativa de tomar São José do Norte, para garantir um porto, resultou naquele que foi considerado o combate mais sangrento da guerra. Conta-se que as ruas da vila ficaram cobertas de cadáveres. Nele, os farroupilhas tiveram 181 mortos, 150 feridos e 18 deles foram feitos prisioneiros. Os imperiais tiveram 72 mortos, 87 feridos e 84 prisioneiros.
Apesar da violência do evento, ele também é lembrado pelo gesto cavalheiresco do coronel Antonio Soares Paiva, que comandava a guarnição legalista da cidade. Ao término do combate, Bento Gonçalves - que estava à frente das tropas farrapas - lhe enviou uma mensagem, dizendo que se achava sem médico e remédios para seus feridos. O coronel Paiva, então, lhe mandou um médico e metade dos medicamentos de que dispunha. Em agradecimento, Bento libertou todos os prisioneiros legalistas.

Fontes:

A Revolução Farroupilha, Sandra Jatahy Pesavento, Editora Brasiliense, Lígia Gomes Carneiro | Raízes Sócio-econômicas da Guerra dos Farrapos, Leitman, Spencer - Ed. Graal, 1979 | A Revolução Farroupilha: história e interpretação, Freitas, Décio et alli. Ed. Mercado Aberto, 1985 |

Imagem: Quadro Marcha de Bento Gonçalves a São José do Norte, de José Américo Roig (Zeméco)


domingo, 28 de agosto de 2016

A lenda do Quero-Quero

Quando a Sagrada Família (José, Maria e José) fugia para o Egito, com medo das espadas dos soldados do rei Herodes, muitas vezes precisou se esconder no campo, quando os perseguidores chegavam perto.
Numa dessas vezes, Nossa Senhora, escondendo o Divino Piá, (Jesus), pediu a todos os bichos que fizessem silêncio, que não cantassem, porque os soldados do rei podiam ouvir e dar fé.
Todos os animais obedeceram prontamente, mas o quero-quero, alheio aos acontecimentos e por ser uma ave alarmista, sempre alerta, querendo avisar cantando quando alguém se aproximava, não cessava de gritar a sua voz aguda.E dizia: Quero! Quero! Quero! e queria porque queria cantar.
E tanto disse que foi amaldiçoado por Nossa Senhora e ficou querendo até hoje.

Observação: O Quero-quero é uma ave que se encontra em toda a América do Sul e parte da América Central. É uma ave símbolo do Rio Grande do Sul.